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sexta-feira, 7 de dezembro de 2007



Foi, finalmente, lançado em DVD o filme de Akira Kurosawa RAN, Os Senhores da Guerra. Creio que Shakespeare nunca foi tão bem filmado. Mas não se trata apenas de Shakespeare, trata-se antes do seu grande tema, a absoluta, terrivel, solidão do poder. Kurosawa encena-o espantosamente. Dança a um tempo formal e informe na qual qualquer razão sucumbe. Filme de elipses, o que ao olhar é dado a ver ´sempre menos do que o que à imaginação se sugere, porque a visibilidade do horror está já instalada no cerne do filme, apenas pode proceder em escalada, assumindo o desafio de dar forma ao que o espectador deve imaginar solitariamente mas que não saberia pensar sozinho.

sábado, 24 de novembro de 2007




Vou resistir à interpretação semiótica do cartaz. Trata-se de um cartaz norte-americano, ligado a uma campanha governamental de prevenção da Sífilis e de outras doenças venéreas (VD). Confrontamo-nos com um plano onde os elementos, implícitos e explícitos, têm de ser "discursificados". Esta mesma linguagem gráfica é usada em cartazes de propaganda e em publicidade. O que não se mostra e o que não se diz tende a ser tão forte como o que se mostra e o que se diz. Tal não significa (pelo menos não o significa sempre) que o que se omite - intencionalmente ou devido a códigos de censura - é algo de extraordinário, significa antes que os elementos que remetem para o que está omitido o tendem a amplificar. O discurso gráfico norte-americano faz assim uso de símbolos e ícones que hiperbolizam o que se não dá a ver para melhor manipular a comunicação, para a tornar, em suma, persuasão.



Antes de Foucault publicar a sua "História da Sexualidade", o antropólogo francês (de origem Russa) Marcel Sapir escreveu um pequeno livro sobre o modo como as relações de poder encontravam uma tradução particular nas "coreografias" sexuais. O sexo sempre foi espaço de encenação. As representações do sexo, desde as mais "sujestivas" às mais explicítas, eram, de um modo ainda mais claro, "espaço encenado". As imagens que se propõem a revelar, ao natural, a prática sexual quase sempre eram dominadas pelos mais diversos preconceitos que reduziam a representação a uma grotesca caricatura. O "corpo-sexuado" tende a ser um significante hiper-significado, o que parece querer dizer que o sexo nos não basta. O prazer vem daquilo que ele representa e muitas vezes das correspondências entre o que nós fazemos e o "espaço imaginário" que, através do sexo, pretendemos habitar.



Pai e filho estão estáticos. Separa-os uma distância simbólica. Suficientemente próximos, irremediavelmente distantes. Paul Johnsson, o designer responsável pela campanha, podia ou não conhecer os livros de Edward T. Hall mas revelava um conhecimento, pelo menos intuitivo, da proxémia e uma capacidade para fazer das distâncias, entre os elementos de uma composição gráfica, uma alegoria política. "It can happen here". No cartaz de Johnsson não há lugar (nenhum elemento de identificação ou caracterização). O "lugar" é o suporte da informação. "Here" representa o próprio espaço de comunicação. A mensagem ganha, assim, uma surpreendente ambiguidade. Perdida a liberdade, o que fica é um papaguear propagandístico, sem sentido. Entre nós (receptores) e a mensagem resta, também, uma distância simbólica. Suficientemente próximos, irremediavelmente distantes.


O designer gráfico Emmanuel Polanco decidiu representar um Macbeth dividido ao meio. Trata-se de uma figuração de uma divisão ínsita ao poder (os jogos do ter ou não-ter) mas igualmente constitutiva da personagem de Macbeth. Que esta personagem dual empunhe na mão esquerda o punhal, serve apenas para criar a ilusão de que o "corte" pode ter sido auto-infligido. Pura ilusão. Macbeth representa o poder e a sua assumpção simbólica mesmo no momento de maior fragilidade. Irremediavelmente perdido exibe na mão direira (justamente elidida) a perda e na mão esquerda o poder. Foi sempre assim, mas só agora - à beira do fim - essa condição original se revela.